Existe uma pergunta que atravessa muitas das experiências que chegam ao consultório: o que de mim permanece, enquanto o corpo muda, os papéis se transformam e o tempo avança? É uma questão que carrega tanto a angústia quanto a dignidade de quem envelhece.

A psicanálise nos ensina que a identidade não é uma estrutura rígida, mas um processo vivo — tecido na relação com os outros, com a memória e com o desejo. O que envelhece são as formas, os papéis, as capacidades físicas. O que não envelhece, muitas vezes, é o sujeito em sua singularidade: a forma como alguém ama, como cria sentido, como resiste ou se dobra diante da vida.

Freud, ao refletir sobre a memória, nos apontou que o passado não é simplesmente arquivado — ele é constantemente reinterpretado. Lembrar não é recuperar; é recriar. E nesse ato de recriar, há algo de profundamente humano que não se deixa tomar pela corrosão do tempo.

Muitas vezes, os idosos que chegam ao atendimento carregam a sensação de que foram esquecidos — pelo mundo, pelos mais jovens, até por si mesmos. A escuta psicanalítica propõe exatamente o oposto: um espaço onde essa história importa, onde há alguém que se interessa genuinamente pelo que foi vivido, pelo que ainda se deseja, pelo que ainda pode ser dito.

A velhice não é o fim da subjetividade. É, muitas vezes, um momento de síntese — e, paradoxalmente, de abertura. Quando as urgências do mundo externo diminuem, o mundo interno se revela com uma clareza que a vida acelerada raramente permite.

O que não envelhece, talvez, seja isso: a capacidade de se perguntar quem se é. E a coragem de continuar respondendo.

Larissa Radaelli — Psicanalista

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