O luto não segue cronograma. Esta é, talvez, uma das verdades mais difíceis de aceitar numa cultura que tende a tratar a dor como um problema a ser resolvido o quanto antes.
Freud, em "Luto e Melancolia", nos apresentou o luto como um trabalho — não uma fase a ser superada, mas um processo ativo de desinvestimento psíquico do que foi perdido. Esse trabalho exige tempo, exige que a dor seja sentida, que a perda seja reconhecida em todas as suas dimensões: o que foi perdido, o que não será mais, o que poderia ter sido.
Na clínica, é comum encontrar pessoas que chegam envergonhadas por ainda sentir a dor de uma perda ocorrida há meses ou anos. Como se o sofrimento tivesse data de validade. Como se o luto mal resolvido fosse um fracasso pessoal.
O que a psicanálise nos oferece, nesses casos, é um espaço onde o tempo se expande — onde não é preciso já ter "superado", onde a lembrança do que foi perdido pode ser acolhida sem pressa de desaparecer.
Elaborar o luto não significa esquecer. Significa poder continuar vivendo sem que a ausência defina tudo. Significa que o amor que existia pode encontrar outras formas de expressão, que a saudade pode coexistir com o prazer, que a vida pode retomar seu curso sem apagar o que ficou.
Cada luto é único, assim como cada vínculo o foi. E é exatamente por isso que o tempo de elaboração não pode ser prescrito de fora — ele precisa ser respeitado de dentro, na escuta cuidadosa de quem perdeu e ainda carrega.
Larissa Radaelli — Psicanalista
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