Escutar um idoso é, antes de tudo, um ato de respeito ao tempo. Cada pessoa que chega ao consultório carrega décadas de experiência, perdas, amor, trabalho, escolhas — uma vida inteira que não cabe em um diagnóstico nem se resume a uma queixa.
A psicanálise oferece um lugar raro: aquele onde o idoso não precisa ser útil, produtivo ou otimista. Pode, simplesmente, ser. Pode falar do que dói, do que ficou para trás, do que ainda deseja — sem ser apressado ou tranquilizado prematuramente.
Na clínica com idosos, é comum que a primeira necessidade seja exatamente essa: ser ouvido sem pressa. Muitas famílias, mesmo bem-intencionadas, tendem a oferecer soluções onde o idoso precisa de presença. A escuta psicanalítica propõe o contrário: sustentar o silêncio, acolher a repetição, deixar que a palavra do outro se abra em seu próprio ritmo.
A singularidade, nesse contexto, é fundamento clínico. Não existe um idoso padrão, assim como não existe um envelhecimento padrão. Cada pessoa envelhece a partir de sua história, de seus vínculos, de seu modo de habitar o próprio corpo e o próprio tempo. O analista que escuta um idoso precisa estar disponível para ser surpreendido — por uma resistência inesperada, por um desejo que persiste, por uma alegria que aparece onde não se esperava.
Trabalhar com essa faixa etária também nos convida, como analistas, a refletir sobre nossa própria relação com a finitude. A velhice nos coloca diante de questões que nenhum de nós escapa — e é justamente aí que a psicanálise, mais do que nunca, se mostra necessária.
Larissa Radaelli — Psicanalista
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